Recuperação judicial no Agronegócio: Um sinal claro de alerta sobre a gestão empresarial no campo

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DIREITO EMPRESARIALGOVERNANÇA CORPORATIVACOMPLIANCEAGRONEGÓCIO

Pedro Henrique Borsari

6/13/20255 min read

O agronegócio brasileiro, tradicionalmente reconhecido como um dos setores mais resilientes da economia nacional, começa a apresentar alguns sinais preocupantes de vulnerabilidade estrutural. Apesar de sua contribuição expressiva para o Produto Interno Bruto (PIB) e para a balança comercial do país, empresas ligadas à produção agropecuária vêm enfrentando dificuldades crescentes em manter a sustentabilidade de suas operações.

Dados recentes revelam que 341 empresas agropecuárias tiveram pedidos de recuperação judicial aceitos no primeiro trimestre de 2025 — um aumento de 38% em relação ao mesmo período do ano anterior e de 15,6% na comparação com o último trimestre de 2024. O crescimento vertiginoso de casos em tão curto espaço de tempo não apenas demonstra um acúmulo de tensões econômicas no setor, mas expõe, sobretudo, a fragilidade dos modelos de gestão atualmente adotados por parte considerável das empresas rurais.

A crise não é apenas climática ou econômica: é estrutural

Historicamente, oscilações de preços, variações cambiais, elevação de custos de insumos e eventos climáticos extremos (como secas e geadas) sempre fizeram parte do risco operacional do agronegócio. No entanto, os dados atuais indicam que tais fatores, embora relevantes, não são os principais responsáveis pela crise vivida pelas empresas rurais.

A maior parte dos especialistas em reestruturação empresarial aponta que, embora os fatores conjunturais agravem o cenário, a origem mais profunda do problema está na forma como a atividade rural é gerida. Em outras palavras: empresas mais organizadas, com gestão financeira profissionalizada, governança estruturada e práticas preventivas de controle de riscos, conseguem resistir aos mesmos desafios que levaram outras à falência.

Essa constatação é reforçada pelo fato de que as poucas empresas que conseguem sair do regime de recuperação judicial o fazem após implementar mudanças substanciais em sua gestão administrativa e financeira, e não apenas em função da melhora dos preços de mercado ou da produtividade de suas lavouras.

Segmentos mais atingidos: soja, pecuária e cana-de-açúcar

O levantamento realizado junto às empresas em recuperação judicial revela que o problema é mais concentrado em determinados segmentos da agropecuária, especialmente aqueles com operações intensivas em capital e com maior exposição a variações climáticas.

Entre os 341 casos registrados:

  • 124 empresas atuam no cultivo de soja, principal cultura de exportação do país, que vem enfrentando oscilações nos preços internacionais e altos custos com insumos e defensivos;

  • 68 empresas atuam na criação de bovinos para corte, segmento afetado pela desaceleração da demanda, principalmente interncional, e pelo aumento dos custos de alimentação animal;

  • 43 empresas são voltadas para o cultivo de cana-de-açúcar, em especial usinas que enfrentam problemas de liquidez, consequência de safras anteriores prejudicadas por estiagens, incêndios e investimentos de retorno demorado.

Além dessas, o levantamento evidencia o impacto na cadeia agroindustrial mais ampla, com 39 usinas de açúcar, 26 frigoríficos e 26 distribuidoras de defensivos e fertilizantes em recuperação judicial. Isso demonstra que a crise não se limita à produção primária, mas se irradia por todo o ecossistema do agronegócio brasileiro.

Nossa perspectiva:

A atuação do nosso escritório junto a empresas do setor nos permite afirmar, com base empírica, que o crescimento das recuperações judiciais está diretamente relacionado a deficiências na governança, no planejamento financeiro e na gestão de riscos. São raros os casos em que a causa da crise foi unicamente externa.

Identificamos, com frequência, padrões de gestão que se mantêm ancorados em práticas informais, pouco profissionais e incompatíveis com o grau de complexidade do agronegócio moderno. Entre os problemas mais comuns, destacamos:

1. Falta de planejamento financeiro estruturado

É recorrente encontrar empresas sem qualquer fluxo de caixa projetado, com registros contábeis desatualizados ou inexistentes, o que impede decisões estratégicas racionais. A ausência de controle sobre receitas futuras, compromissos assumidos e ciclos de pagamento de financiamentos torna o negócio vulnerável a variações mínimas nos preços ou na produtividade.

2. Tomada de crédito em condições desfavoráveis

A busca por capital, muitas vezes feita de maneira emergencial, leva empresários rurais a firmarem contratos de CPRs, operações de barter ou financiamentos com taxas incompatíveis com sua capacidade real de pagamento. A falta de análise prévia de viabilidade e de renegociação adequada de dívidas compromete a sustentabilidade financeira a médio e longo prazo.

3. Gestão patrimonial confusa e riscos jurídicos elevados

É comum observar a confusão entre patrimônio pessoal e empresarial, o que acarreta exposição de bens particulares em execuções. Além disso, contratos operacionais — com fornecedores, arrendadores, parceiros comerciais — muitas vezes são verbalizados ou redigidos sem revisão técnica, criando um passivo jurídico silencioso que explode em momentos de crise.

4. Ausência de estrutura de governança e compliance

A governança corporativa, que já é prática consagrada em grandes empresas urbanas, ainda é negligenciada no meio rural. A ausência de conselhos, mecanismos de fiscalização interna, gestão de riscos jurídicos e políticas de conformidade gera fragilidade institucional e dificulta a reação da empresa frente a adversidades.

5. Reação tardia à crise

Por fim, muitos empresários rurais procuram soluções jurídicas apenas quando já estão em situação crítica de inadimplemento. Com isso, perdem-se oportunidades de renegociação preventiva, reestruturação administrativa e até de venda de ativos não essenciais, que poderiam preservar a operação principal.

Conclusões

A evolução dos dados no início de 2025 evidencia que a recuperação judicial no agronegócio brasileiro deixou de ser um fenômeno pontual e passou a representar um problema estrutural relevante.

Embora os fatores econômicos e climáticos agravem o cenário, a principal conclusão é que há muita fragilidade na gestão interna das empresas. Sem uma reformulação do modelo de administração das operações rurais, sem profissionalização da tomada de decisões e sem a implementação de estruturas de governança, o setor seguirá vulnerável, ainda que os preços internacionais melhorem ou as safras sejam favoráveis.

A tendência, segundo especialistas, é que o número de recuperações judiciais continue crescendo no curto prazo, já que os efeitos da crise se manifestam em ondas. Mesmo empresas que tenham colhido bons resultados nesta safra ainda podem enfrentar problemas de caixa nos próximos trimestres, em decorrência de dívidas acumuladas e investimentos passados mal planejados.

O dado mais emblemático talvez seja o de que, no mesmo trimestre em que 341 empresas ingressaram com pedidos de recuperação, apenas duas conseguiram encerrar seus processos e retomar a operação normal, o que demonstra o alto custo financeiro, jurídico e operacional da judicialização e a dificuldade de reversão do quadro uma vez instalado.

Diante desse panorama, as medidas apontadas neste artigo se mostram não apenas desejáveis, mas essenciais. Adotá-las de forma preventiva pode representar a diferença entre manter uma operação rural sustentável ou ingressar num processo judicial de longa duração, alto custo e desfecho incerto. O futuro do agronegócio exigirá não apenas produtividade no campo, mas também maturidade na gestão.