Por que grandes fortunas familiares acabam desaparecendo?

Pedro Henrique Borsari

12/13/20244 min read

John D. Rockefeller, conhecido como o americano mais rico da história e o primeiro bilionário do mundo, acumulou uma fortuna impressionante. Em seu auge, pouco antes de sua morte, seu patrimônio líquido era estimado em US$ 1 bilhão. Embora essa quantia pareça modesta em comparação aos gigantes da tecnologia de hoje, na época correspondia a 3% do PIB anual dos Estados Unidos, que era de US$ 39,1 bilhões. Ajustado de acordo com a inflação, o patrimônio de Rockefeller em 2020 seria equivalente a cerca de US$ 450 bilhões, superando, em conjunto, as fortunas de Elon Musk, Bill Gates e Jeff Bezos.

Mas onde foi parar essa fortuna? Embora Rockefeller tenha morrido há quase um século, seria lógico imaginar que sua riqueza pudesse se sustentar pelas gerações futuras, o que, no entanto, acabou não acontecendo. E esse fenômeno não é exclusivo dos Rockefeller. Muitas das grandes dinastias financeiras, como os Medici e os Rothschilds, também viram suas fortunas se dissiparem ao longo do tempo.

A explicação padrão: divisão de heranças

Um dos fatores frequentemente apontados para a fragmentação dessas fortunas é a divisão dos bens entre os herdeiros. Rockefeller, por exemplo, teve cinco filhos, e sua riqueza, além de grandes doações para instituições de caridade estipuladas em seu testamento, acabou sendo dividida igualmente entre eles. Cada herdeiro recebeu uma parte considerável, mas ajustadas pela inflação, nenhuma dessas parcelas seria suficiente para colocá-los no topo da lista da Forbes nos dias de hoje.

E a questão só se agravou com o passar das gerações. Atualmente, há mais de 70 herdeiros diretos da família Rockefeller, e isso não é nada incomum entre as dinastias tradicionais de nossa história. Em famílias mais antigas, como os Rothschilds, por exemplo, o número de descendentes diretos chega a milhares, agravando ainda mais o fenômeno da diluição patrimonial.

Ainda assim, a explicação da divisão de heranças não é suficiente, já que dinheiro, quando bem investido, gera mais dinheiro. Em estimativa, se a fortuna original de US$ 1 bilhão de Rockefeller tivesse sido mantida em investimentos amplos, como no mercado acionário americano, ela poderia ter crescido exponencialmente, podendo atingir impressionantes US$ 4,2 trilhões. Em teoria, seus herdeiros seriam hoje as pessoas mais ricas do mundo.

Além do mais, em famílias como a dos Rockefeller, é muito incomum que a transmissão de patrimônio se dê por meio de inventários, mas sim por meio de estruturas corporativas, como holdings ou family trusts (mais comuns nos Estados Unidos).

Mas, então, o que é que aconteceu?

Embora a lógica do "dinheiro gerando dinheiro" pareça robusta, o caso Rockefeller ilustra que a preservação patrimonial intergeracional enfrenta desafios significativos. Entre os principais fatores que explicam a redução drástica do valor do patrimônio familiar, podemos listar quatro questões principais:

  1. Doações Filantrópicas
    John Rockefeller destinou grande parte de sua fortuna a projetos filantrópicos, como a criação de escolas, museus, parques nacionais e instituições de pesquisa científica. Após sua morte, seus herdeiros continuaram esse legado, frequentemente doando até metade de seus bens a causas sociais e políticas, o que limitou o potencial de crescimento do patrimônio.

  1. Tributação e Despesas
    Impostos sobre heranças, ganhos de capital, além de custos associados a litígios, divórcios e manutenção de estilos de vida luxuosos, também contribuíram para a erosão da fortuna.

  1. Gestão Patrimonial Complexa
    À medida que o número de herdeiros aumenta, o patrimônio familiar tende a ser gerido por múltiplas trusts e escritórios familiares, dificultando o controle unificado e estratégico. Essa pulverização administrativa torna desafiador consolidar e reinvestir a riqueza de maneira eficiente.

  1. Limitações de Crescimento Econômico
    No contexto das famílias mais antigas, como os Medici e os Rothschild, a economia global anterior à Revolução Industrial não apresentava o mesmo potencial de crescimento exponencial que os mercados contemporâneos. Isso também explica por que fortunas antigas não conseguiram manter seu valor ao longo de séculos.

Lições históricas e estratégias para a preservação de fortunas

A trajetória dessas grandes dinastias familiares nos ensina que embora a multiplicação do dinheiro com o tempo seja a lógica, a preservação do patrimônio ao longo de gerações exige estratégias específicas. Por isso, inclusive, é que existem hoje empresas especializadas unicamente na gestão de grandes fortunas, que atuam na aplicação de soluções que incluem a criação de estruturas societárias familiares, educação financeira de herdeiros e assessoria de investimentos.

Em resumo, o que se pode aprender com a história de famílias como a dos Rockefeller, Medici e Rothschild é que a perpetuação de fortunas intergeracionais não é uma tarefa simples. A combinação de filantropia, planejamento familiar e tributário equivocados e gestão financeira insuficiente pode rapidamente reduzir até mesmo os maiores patrimônios, e para que isso seja evitado, é essencial conhecer os erros do passado.

Se você deseja compreender mais sobre como estruturar, planejar e garantir a longevidade de seu patrimônio, conhecer as ferramentas jurídicas e financeiras disponíveis é o primeiro passo.