O Que o Conselho de Administração Realmente Faz: Reflexões sobre sua Influência e os Desafios

GOVERNANÇA CORPORATIVADIREITO EMPRESARIALCOMPLIANCE

Pedro Henrique Borsari

1/24/20254 min read

Depois da virada do ano, Mark Zuckerberg, fundador e CEO da Meta, anunciou a nomeação de Dana White, presidente do UFC, para o conselho de administração da sua empresa. Essa decisão gerou reações variadas entre colaboradores e acionistas, mas, para aqueles familiarizados com a dinâmica de organização dos conselhos de grandes empresas, trata-se de um movimento estratégico nada surpreendente.

A integração de membros renomados ao conselho de administração é uma prática comum em grandes corporações. Um exemplo disso é a Boeing, que recentemente nomeou para o seu conselho de administração o ex-CEO do Vanguard Group, Mortimer J. Buckley, que também é membro do conselho da Pfizer, ao lado do atual presidente da Coca-Cola, empresa que tem em seu conselho a Diretora de Conteúdo da Netflix, que, por sua vez, compartilha uma parcela de conselho com a FOX, que também tem ex-membros do conselho da Boeing em seu board.

Esse é, sem dúvidas, um ecossistema de nomes que frequentemente ocupam múltiplos assentos em conselhos corporativos de alto nível. Esse "clube restrito" levanta uma dúvida crucial: qual é o verdadeiro papel dos conselheiros e como eles impactam as empresas?

A Teoria e a Prática da Atuação em Conselhos de Administração

O papel primário de um conselho de administração é supervisionar a gestão da companhia, representando os interesses dos acionistas. Em tese, os conselheiros devem atuar como uma camada adicional de inteligência e responsabilidade estratégica, avaliando decisões e, quando necessário, vetando propostas que possam colocar em risco a estabilidade ou a lucratividade da empresa a longo prazo. Além disso, cabe ao conselho determinar a remuneração de executivos, um ponto frequentemente marcado por divergências entre os interesses dos CEOs e dos acionistas.

No entanto, a prática frequentemente se desvia dessa teoria idealizada. Ser conselheiro de uma grande corporação não é, normalmente, um trabalho de tempo integral. As responsabilidades incluem comparecer a reuniões mensais ou trimestrais, ouvir apresentações da equipe de gestão e aprovar ou questionar iniciativas estratégicas. Por exemplo, caso uma empresa decida investir bilhões em uma nova tecnologia, como plataformas de realidade aumentada, por exemplo, espera-se que o conselho analise a viabilidade econômica, técnica e prática do projeto antes da sua execução.

O desafio reside no equilíbrio entre oferecer suporte à gestão e exercer uma fiscalização rigorosa. Embora o conselho tenha poder para demitir o CEO, na prática, essa dinâmica pode ser influenciada por relações interpessoais e interesses mútuos, criando uma zona nebulosa entre supervisão eficaz e complacência.

Remuneração e Benefícios: Um Incentivo à Participação

A remuneração dos conselheiros de grandes empresas públicas é generosa. No caso da Meta, documentos financeiros revelaram que, em 2023, os membros do conselho receberam entre US$ 300 mil e US$ 2 milhões no ano, incluindo compensações em dinheiro, ações e reembolsos de despesas. Esse alto nível de compensação torna a posição atraente, especialmente para profissionais que conseguem integrar múltiplos conselhos.

No entanto, essa prática vem sendo ajustada nas políticas adotadas por grandes investidores institucionais, como BlackRock e Vanguard. Ambas as empresas estabeleceram diretrizes que limitam o número de assentos que um conselheiro pode ocupar, restringindo-o a no máximo quatro conselhos de empresas listadas no índice S&P 500.

Nomeações: Estratégia e Poder

A composição de conselhos muitas vezes reflete mais do que competência técnica. Nomeações estratégicas podem garantir conexões com órgãos reguladores, governos e outras empresas, reforçando o posicionamento da organização em um mercado competitivo. Por exemplo, a nomeação de Dana White para o conselho da Meta não se limita à sua experiência em gestão esportiva, mas também sinaliza uma relação próxima com figuras políticas influentes diretamente ligadas ao presidente do UFC, como Donald Trump, o que pode beneficiar a empresa em questões regulatórias e estratégicas.

Além disso, empresas com históricos de integrar ex-membros de alto escalão do governo em seus conselhos frequentemente atraem a atenção de autoridades em exercício, que vislumbram essas posições como possíveis "aposentadorias douradas" e, por esse motivo, preferem beneficiar essas empresas durante o seu período de gestão para assegurar que elas os contratem quando saírem de seus cargos públicos. Isso tudo reforça o ciclo de influência e poder que caracteriza o ambiente corporativo global.

A Influência de Grandes Gestores de Ativos

Outro fator que molda a composição dos conselhos é o papel desempenhado por grandes gestores de ativos como Vanguard, BlackRock e State Street. Esses gigantes financeiros, que administram trilhões de dólares em investimentos, frequentemente concentram votos significativos em assembleias gerais, influenciando diretamente a seleção de conselheiros. Embora essas empresas não possuam diretamente as ações que administram, elas detêm poder considerável sobre o destino das empresas em que investem.

Embora políticas voltadas para diversidade, inclusão e governança ambiental sejam frequentemente promovidas por esses gestores, elas podem levar à nomeação de conselheiros com base em critérios que nem sempre refletem os melhores interesses dos acionistas. Essa desconexão entre os interesses corporativos e os objetivos de sustentabilidade ou diversidade pode gerar debates sobre a efetividade dos conselhos em suas funções primordiais.

Conclusão

A atuação em conselhos de administração de grandes corporações envolve uma complexa interseção entre poder, influência e estratégia. Embora o papel do conselheiro seja, em teoria, assegurar a longevidade da empresa e os interesses dos acionistas, a realidade demonstra que fatores políticos e de relacionamento muitas vezes moldam as decisões tomadas nessas instâncias.

No caso de empresas menores, entretanto, apesar de não ser obrigatório, contar com um conselheiro técnico e profissional pode representar uma vantagem estratégica decisiva. Quando bem escolhido, o conselho é uma ferramenta capaz de trazer expertise, ampliar a visão de mercado e colaborar na definição de objetivos estratégicos claros e alcançáveis. Diferentemente das grandes empresas, onde conselheiros frequentemente exercem um papel mais institucional, em negócios em desenvolvimento, um conselheiro engajado pode atuar como um verdadeiro parceiro, ajudando a consolidar bases sólidas para o crescimento sustentável.