Considerações sobre os desafios do mercado de créditos de carbono
COMPLIANCESUSTENTABILIDADE
Pedro Henrique Borsari
12/6/20243 min read


Nos últimos anos, empresas e governos têm enfrentado pressões crescentes de investidores, consumidores e da população em geral para que se reduzam impactos ambientais. Uma das soluções amplamente adotadas foi a aquisição de créditos de carbono, uma prática que permitia às organizações compensarem suas emissões de gases de efeito estufa. Essa abordagem, no entanto, que inicialmente parecia bastante eficaz, vem sofrendo críticas nos últimos tempos quanto a seus resultados e à transparência de seus players.
O mercado voluntário de créditos de carbono, avaliado em bilhões de dólares, vem sendo questionado, após escândalos relativamente recentes, quanto à sua eficácia ambiental, e, ao mesmo tempo, casos como o do tribunal holandês que determinou à Shell a redução de 45% de suas emissões de CO2 até 2030, têm colocado ainda mais pressão sobre as empresas para que sejam adotadas medidas reais, em vez de compensações simbólicas.
Como funcionam os créditos de carbono
Os créditos de carbono, em essência, permitem que empresas compensem suas emissões financiando projetos que prometem retirar ou evitar a liberação de carbono na atmosfera. Organizações como Verra - sediada em Washington, capital dos EUA - e Gold Standard - com sede em Genebra, na Suíça - dominam esse mercado, certificando projetos de sequestro de carbono, reflorestamento e agricultura sustentável. Vale reforçar que essas entidades não realizam a remoção de carbono diretamente, mas auditam projetos que alegam fazê-lo.
Se uma empresa pode, por exemplo, comprovar que evitou a liberação de uma tonelada de carbono, seja pelo reflorestamento de áreas, pela manutenção de uma floresta em pé ou por outro meio viável, ela pode solicitar um crédito de carbono certificado. Esse crédito, então, pode ser vendido para grandes marcas, que, por sua vez, passam a poder promover seus produtos com selos de sustentabilidade e “carbono neutro”.
É inegável que incentivar a adoção massiva é sempre uma boa ideia, mas com a formação de um nicho de mercado tão financeiramente promissor como o dos créditos de carbono, os golpes e esquemas fraudulentos passam a ser pontos de atenção, especialmente em um ambiente novo, sobre o qual ainda não se estabeleceu um sistema regulatório completo. Para se ter uma ideia, um estudo recente, conduzido pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, revelou que até 94% dos créditos vendidos não resultaram em nenhuma remoção real de carbono.
O mercado voluntário de créditos de carbono operava paralelamente a programas obrigatórios, como o sistema europeu de comércio de emissões. A principal motivação das empresas para participar desse mercado era evitar regulamentações mais rigorosas e promover sua imagem como ambientalmente responsáveis.
Todavia, práticas enganosas, como a aquisição de terras remotas na Amazônia para evitar desmatamento - quando essas áreas já não estavam sob ameaça de exploração - minaram a credibilidade do sistema. Isso levou à queda vertiginosa do valor dos créditos voluntários, de US$ 19,00 por tonelada em janeiro de 2022 para apenas US$ 1,77 em setembro de 2023.
Além disso, a pressão de investidores em iniciativas ESG - ambientais, sociais e de governança - contribuiu para o crescimento do mercado. Muitas empresas aderiram a índices ESG com critérios pouco rigorosos, que incluíam até mesmo grandes poluidoras, como Royal Dutch Shell e Exxon, enquanto excluíam empresas inovadoras, como a Tesla. Essa contradição expôs as falhas do sistema e levou investidores a questionarem a eficácia dessas práticas.
O papel das empresas e a reformulação do mercado voluntário
Com o colapso desse antigo formato do mercado voluntário, iniciativas estão sendo reformuladas para garantir maior integridade às operações de emissão e compra de créditos de carbono. Por exemplo, Verra e Gold Standard introduziram restrições mais rigorosas sobre o que pode ser certificado como compensação de carbono.
Esse movimento de reformulação do mercado voluntário de créditos de carbono traz lições valiosas. Enquanto investidores e consumidores exigem ações concretas, as empresas precisam repensar suas estratégias ambientais. A busca por “soluções fáceis” não apenas compromete a credibilidade corporativa, mas também ameaça os esforços globais para combater as mudanças climáticas.
Por fim, o que se pode concluir é que, embora os créditos de carbono possam ser uma ferramenta útil no caminho do desenvolvimento sustentável, é importante que reguladores, investidores e a sociedade civil se atentem à efetividade dos projetos que patrocinam, pelo bem do meio ambiente e da saúde e longevidade do próprio mercado, que se mostra como uma alternativa atrativa de maximização da rentabilidade de propriedades rurais.
